quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Vivendo o meu luto


Bom, é um assunto muito delicado, mas gostaria de compartilhar com vocês o que eu sinto quanto a isso, e quem quiser, comentar e compartilhar fique a vontade, quero poder de algumas forma ajudar alguém, assim como também me ajudaram em um dos momentos mais difíceis da minha vida.
Eu acredito que toda mulher nasce com os laços maternos dentro delas, só que esses laços vão se aflorando a cada dia, algumas já nascem afloradas, tipo minha comadre Fabiana, ela é dessas mãezonas mesmo, sou muito fã dela, me lembro que quando ela casou, ela dizia que iria voltar grávida da lua de mel, RS. Algumas assim como eu, demoram mais pra aflorar, mas quando afloram, sai de baixo, RS...
Eu sempre dizia que não seria mãe, até gostava de brincar com crianças maiores de 2 anos por uns 5 minutos, mas não pegava bebê no colo e muito menos trocava. Quando comecei a namorar com o Ney, logo já estávamos pensando em casamento, mas dizia pra ele que não queria filhos, na verdade eu tinha medo do parto, achava que iria morrer, RS, o Ney ficava um pouco chateado, pois ele dizia que queria uns 10. Mas com o tempo disse pra ele que 1 tudo bem.
Como muitos sabem, perdi minha mãe devido ao câncer. Em 2005 quando descobrimos a doença, eu fiquei desesperada pra engravidar, pois o sonho da minha mãe era ser avó, foi aí que eu comecei a perceber, que existia sim dentro de mim o tal dos “laços maternais”. Foram 4 anos tentando engravidar, fiz vários exames, passei por vários médicos, mudava as posições, levantava as pernas pra cima, dormia segurando o xixi, dormia com almofada no bumbum, media todos os dias sem falhar a minha temperatura basal, entre tantas coisas. Tudo o que falavam pra eu fazer, eu fazia. Foi uma fase deprimente tanto pra mim, como para o Ney, a gente ficava sabendo que alguém estava grávida, era uma tristeza, não pela pessoa, mas porque todo mundo engravidava e eu não?? O menstruação chegava e eu percebia que o Ney ficava triste, assim como eu... E os testes de farmácia então?? Sempre negativo!! Decidimos parar de tentar, pois aquela situação estava muito ruim. Uma médica me disse que eu não engravidaria sem tratamento, cheguei a tomar indutor e nada resolveu. Mas optamos por não fazer FIV e nem IA, pois o meu medo era grande de também não conseguir. Começamos a pensar na possibilidade de adoção, que ainda mora em meu coração.
Ano de 2009, o câncer da minha mãe, que começou no intestino, havia aparecido no fígado, depois no pulmão, voltou pro fígado, e depois de muitas quimios, rádios, e cirurgias, chegou na cabeça, foi uma fase muito difícil, onde já desacreditava de ser mãe, e também nem tinha forças pra pensar em mais nada, queria minha mãe curada a todo custo, mesmo o médico dizendo que não tinha mais o que fazer. Foi quando depois de um dia muito cansativo, cuidando da minha mãe, carregando ela no colo, dando banho, eu sentei e percebi que meu corpo estava diferente. As vezes eu assisto um programa “eu não sabia que estava grávida” e não entendo como aquelas mulheres não conseguiram perceber que estão grávidas, RS, Deus é muito perfeito em tudo que faz, é incrível imaginar em como ele pensou em tudo, disse pro Ney que estava me sentindo diferente e percebi que minha menstruação não havia chegado, relutei em fazer mais um teste, mas devido aos esforços que estava fazendo cuidando da minha mãe, resolvemos fazer, pelo menos assim descartava a possibilidade, que para nossa total surpresa foi muito positiva.
A partir desse momento me tornei uma mãe, e ninguém jamais poderia tirar isso de mim, tudo mudou na minha vida, tudo se tornou mais lindo. Quando fiz o ultrassom e descobrimos que eram dois bebês então, achei que tudo seria resolvido, minha mãe seria curada e tudo mais. Mas infelizmente as coisas na maioria das vezes não são como nós sonhamos e desejamos, tive um descolamento na placenta, precisava fazer repouso absoluto, mas era muito difícil com a minha mãe terminal, precisava estar ao lado dela, e também precisava de alguém ao meu lado, as pessoas não entendiam a minha preocupação em perder os bebês, pois pra eles eram apenas 2 fetos, pra mim era muito mais do que isso, eram meus filhos, muito esperados, que eu havia lutado tanto pra conseguir, as pessoas me achavam uma folgada, por passar o dia todo deitada ao lado da minha mãe, enquanto minha avó cuidava de tudo, foi uma fase difícil, pois eu amava muito minha mãe, mas queria estar junto do meu marido, queria poder fazer o repouso absoluto, que era quase impossível naquela situação. Quando minha mãe faleceu, passou um tempinho o obstetra que fazia o meu pré - natal me liberou do repouso, estava de 20 semanas e tirando o fato de ter perdido minha mãe, nada podia ser mais perfeito.
Saí com uns amigos para comemorar o fim do repouso, fomos no shopping comer, eu o Ney, Fabiana e Adriano, Priscilla e Denis, meu irmão Rodrigo e minha cunhada Alessandra, tiramos fotos da barriga, os gêmeos ganharam presente da dinda Pri, voltamos pra casa, fomos dormir, acho que não era 00:00 hs e minha bolsa estourou, entrei em completo pânico, nunca havia ficado tão apavorada na minha vida, eu só chorava e dizia ai meu Deus!! Não conseguia dizer pro Ney o que estava acontecendo, mas logo ele percebeu, não vou dizer tudo o que passei daqui pra frente, mas meus filhos tão esperados que eram dois meninos Estevão e Felipe, nasceram e não sobreviveram, pois não estavam pronto ainda. Foi uma junção de muitas coisas, um péssimo pré- natal, feito por um péssimo médico, um péssimo atendimento no hospital, uma mãe de primeira viajem que não tinha informação de nada, que nem imaginava que uma gestação gemelar exige cuidados diferentes.
Enfim, escrevi tudo isso que a maioria já sabia, pra chegar aqui, sobre o depois da perda. As vezes as pessoas me dizem que sou forte, por tanta coisa ter acontecido ao mesmo tempo em minha vida, eu não acho que seja forte, mas cresci muito com essa situação, a doença da minha mãe me fez amadurecer muito, vendo o quanto ela era purificada diante de todo o sofrimento que ela passou, e ela nunca reclamava, estava sempre feliz e fazendo muitos planos, acredito que tudo o que vi a minha mãe passando, foi uma preparação do que estava por vir. É claro que não foi plano de Deus, que minha mãe morresse e depois meus filhos, mas a minha mãe de certa forma, me ajudou a passar por tudo aquilo.
Me lembro de sair da sala de parto e ficar parada em frente a uma outra sala de parto, onde estava nascendo uma menininha, fiquei lá vendo e pensando nos meus bebês que não estariam mais comigo daqui pra frente e eu nem pude pegá-los no colo, fiquei sozinha no quarto, pois o meu convênio na época era enfermaria, e tiraram a outra moça do quarto, pois ela estava grávida e ficaram com medo dela ficar assustada com a minha perda. Fiquei sozinha, quase um dia inteiro, mas a minha ficha demorou pra cair, quando foi a noite, tomei banho, saí do quarto e pedi pra enfermeira deixar eu ir em uma capelinha que tinha lá, ela disse que não podia, foi então que tudo ficou claro na minha mente, eu nunca mais veria meus bebês, e me acabei de chorar na frente dela, que ficou preocupada e permitiu que uma grande amiga ficasse comigo, a minha comadre Fernanda, que foi uma benção pra mim naquele dia, e continua sendo.
Nunca me revoltei, a princípio estava tranquila, mas tive que ficar em casa sozinha 15 dias, o médico não me deixou voltar a trabalhar antes disso. Quando cheguei em casa, a primeira coisa que fiz foi entrar no quarto, que já estava vazio, tinha apenas uma poltrona, meus irmãos tinham desmontado os bercinhos e levado pra casa do meu pai. Os dias seguintes, eu passava naquele quarto vazio sentada na poltrona pensando em como seria a minha vida sem eles, e lendo livros. O Ney chegava do serviço e eu chorava quase todos os dias, estava perdida, mas decidida a continuar. Ganhei de uma amiga querida Kelly, um livro do Padre Alir, o filho que toda mãe gostaria de ter, foi uma grande benção na minha vida, tem muita oração de cura e uma novena para a perda de um filho, que eu e o Ney fizemos juntos, nessa hora a gente tem que se apegar muito a Deus, senão a gente fica louca. O luto é importante, a gente precisa viver aquele momento, pois se fingir que nada aconteceu a gente desmorona mais pra frente. Os meus bebês foram enterrados, eu nem fui, pois estava no hospital ainda, mas depois fiz uma plaquinha com os nomes deles, foi importante pra mim.
Passou uns 15 dias fui fazer uma consulta com o médico que havia feito o meu parto, e ele me deu novas esperanças, fiz uma ultrasson que para minha surpresa eu estava muito fértil, com muitos folículos, até o médico do ultra me disse: - Pode sair daqui e engravidar que está tudo lindo!! RS... O médico havia me pedido pra esperar pelo menos 4 meses, mas foi difícil demais esperar esse tempo, pois havia um buraco muito grande em meu coração e no do Ney também, os dias não passavam e a saudade só aumentava, essa dor de mãe não passa nunca e é duro ter que ouvir das pessoas: - Tadinha, logo passa!! Ou – Você não sabe o que é perder um filho!! – Você tinha que ter se cuidado!! E tantas outras coisas que não vale a pena colocar aqui.
Mas dei a volta por cima, e comecei a fazer o método da Temperatura basal, que aprendi com ele, muito sobre mim, passei a me conhecer melhor e quando passou exatamente 3 meses, não aguentei mais esperar, na minha primeira tentativa, estava eu grávida novamente, fiquei muito feliz por Deus ter permitido que isso acontecesse novamente em minha vida, mas os medos eram muito grande de acontecer novamente. Tive muito apoio do meu marido, pesquisei muito sobre tudo, cheguei a trocar de médico 3 vezes até me sentir completamente segura, mudei totalmente minha alimentação. E Deus me honrou, me deu um filho lindo que hoje está com 2 aninhos e quando ele estava com 7 meses, estava eu grávida novamente de uma menininha linda e fofa que hoje está com 11 meses. Mas coração de mãe é muito grande, e no meu cabe meus dois bebês e os meus dois anjinhos que rezo todo dia pra eles, mesmo sabendo que o reino dos céus é dos pequenos, mas mãe é assim mesmo, nunca esquece os filhos. Eles sempre vão fazer parte de minha vida e mesmo que Deus não tivesse me dado o Miguel e a Sofia, eu ainda continuaria a ser mãe, pois a partir do momento que um ser é gerado em seu ventre, não tem como voltar atrás, a gente se torna mãe, e ninguém pode tirar isso de nós, só sendo mãe para entender.
E ainda escutei muitas coisas das pessoas. –Vê se cuida direito dessa vez!! – Não compre nada antes dos 3 meses, se não o bebê não vinga!! Entre outras... Mas temos que passar por cima disso e continuar, pois além de nós, tem outra pessoa que também sofreu muito com essa situação e precisa da gente, o marido.
Bom, amigas, só queria partilhar com vocês o que aconteceu comigo e dizer que sempre quando fico sabendo de alguém que perdeu um bebê, ou teve um aborto, sofro muito com isso, pois conheço bem essa dor. Bola pra frente amigas, creia que Deus vai te honrar. Nunca cai uma folha de uma árvore sem que Deus queira, Ele sabe todas as coisas. As vezes a gente não entende a vontade de Deus pra nossa vida, mas precisamos aprender a aceitar, pois tudo por pior que seja amadurece o nosso coração. As pessoas me dizem, nossa Deus tirou, mas deu dois no lugar, RS... Mas eu preferia ter os 4 junto de mim, eu nunca vou esquecer os meus meninos, pois eles me ensinaram muito de como ser mãe, pois ninguém nasce sabendo ser mãe, a gente aprende com os filhos, eles são nossos maiores professores.
Pra terminar, uma grande amiga Arlene,me disse algo lindo, que Deus dá a escolha para os bebês de nascerem ou de morrerem pela santificação de sua família, esses nossos bebezinhos que estão no céu intercedendo por nós, escolheram dar a sua vida pela nossa santificação, é lindo de se ouvir e consola a nossa alma.
Vou ficando por aqui e peço o comentário das minhas queridas amigas que passaram e passam por essa situação, para que outras mãezinhas também consigam passar por isso e continuar.
Muita força a todas as mamães de anjos, estamos juntas!! Bjs no coração!!

3 comentários:

  1. Aline, lindo seu blog!!
    Me emocionei lendo esse post, pois seu o que é perder um filho. Eu sempre digo: "filho é filho não importa a idade, sofremos da mesma forma pela perda".Mas Deus nunca desampara..
    Sei bem como é escutar certos comentários que machucam, mas já estou vacinada não me afetam mais...
    Sua família é linda! Bjs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Flávia, pra mim você foi sempre um exemplo de mãe e força. Fico honrada de saber que lê meus posts, sempre vi muita força em você.
      Que Deus continue te guiando sempre.A gente vive, pois outras pessoas dependem da gente, mas o vazio vamos carregar pro resto da vida, imagino você, mas como vc disse Deus nunca desampara.
      Sua família também é linda!!
      Bjs!!

      Excluir
  2. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir