Continuando minha faculdade de direito e lembrando algo
muito importante, como disse no início, enfiamos a cara nas dívidas e não nos
estudos como a maioria costuma a fazer. Modestamente falando, o Ney é o segundo
cara mais inteligente que eu conheço pessoalmente, o primeiro é o meu pai,
RS... Mas enfim, tivemos de fazer um financiamento na faculdade, pagávamos a
metade a vista e a outra metade depois de formado, e assim foi até a metade do
3º ano, e depois ele conseguiu meia bolsa até o final do curso. E além de todas
as contas de final de ano e começo de ano que todos conhecem, já chegaram
nossos boletinhos com a divida atualizada de todos os meses que devemos, RS...
Minha mãe se foi, e como eu estava naquela euforia da
gravidez e ainda de gêmeos, eu não senti tanto, minha ficha demorou muitooo pra
cair, no velório eu ria pra todo mundo, falava dos gêmeos, contava o que tinha
engordado, os enjoos, parecia que estava meio anestesiada de tudo aquilo. Só
quando o caixão fechou é que eu me dei conta de que nunca mais veria a minha
mãe. Os dias se passaram e eu continuava bem, preparando o enxoval, pesquisando
tudo sobre gêmeos, ansiosa para confirmar se eram 2 meninos mesmo, mas o quarto
já estava pintado de azul, pois tinha certeza de que minha mãe estava certa.
Enfim o médico me liberou do repouso, eu nem podia me
conter, queria ir no Centro da Cidade, no shopping ver tudo de bebês. Então
combinei com uns amigos de irmos ao shopping comer, demos uma voltinha, mas não
fiz nada de esforço e nem andei muito. O pessoal assustou de como eu comi
naquele dia, mas essa foi a gestação de eu mais sentia fome e engordei muito.
Chegamos antes das 22:00 hs em casa e logo fomos deitar, e antes da 00:00hs (já
estava dormindo), senti uma água saindo de dentro de mim, que era bem diferente
de xixi. Acordei chorando e não conseguia falar o que estava acontecendo, mas
logo o Ney percebeu e fomos para a maternidade que pretendia que eles
nascessem, chegando lá, a plantonista que me atendeu, me examinou e disse que
estava com a bolsa rota, tentou contato com o meu obstetra que parecia pouco se
importar, disse que mandaria um médico no lugar dele, que nunca apareceu, mas o
hospital não tinha leito disponível, a plantonista ligou para outro hospital
explicando a urgência do atendimento, mas chegando lá, fiquei um bom tempo na
recepção e depois um tempo ainda maior em uma segunda recepção, para o
plantonista me dizer que eu fiz xixi na calça. O médico disse que me internaria
pela minha insistência, mas por ele eu iria embora. Fiquei o domingo inteiro
tendo contrações, mas todo plantonista que aparecia por lá, não dava a mínima,
dizia que eu tinha feito xixi. O último que me examinou, disse que ia me mandar
pra casa, pois eles estavam perdendo tempo comigo. Na segunda, eu ia ter alta,
cheguei até falar isso para o Ney por telefone, mas der repente apareceu um
novo plantonista, que quis saber o que estava acontecendo comigo e ele percebeu
que eu estava em trabalho de parto, fez o toque, não me falou nada e até hoje
eu não sei se estava toda dilatada ou não. Ele olhou para as enfermeiras e
disse: - Vamos correr que eu peguei o pé de um!! Acho que foi um modo de dizer
que eu estava toda dilatada, sei lá, não tomei nenhuma anestesia, a única coisa
que ele me disse foi: -Aline, vamos ter que fazer o seu parto e seus bebês não
irão sobreviver, pois são muito pequenos e será parto normal, para o seu bem,
pois assim você poderá engravidar mas rápido. Eu não sabia o que fazer e dizer,
apenas consenti com a decisão do médico, rezando para que Deus fizesse um
milagre. Eu estava sozinha e as
enfermeiras já foram me transferindo para uma maca, eu peguei meu celular
liguei pro Ney e disse que estava indo para a sala de parto.
O Ney chegou logo e conseguiu entrar meio a força para ficar
comigo. Nasceu o primeiro e era um menino, o Ney chegou a vê-lo mexer, mas
assim como o médico havia dito meu Estevão não sobreviveu. Tive que ficar em
outra sala, esperando o Felipe descer, pois ele estava alto. Naquele momento,
nem me lembrava do pavor que tinha de parto normal, só esperava de Deus um
milagre e sentia meu bebezinho pulando dentro de mim, ficava imaginando o que
ele estava sentindo depois de 5 meses juntos, a vida os tinha separado por
alguns minutos, mas logo estava na hora dele nascer também e não tinha o que
fazer. Ele também nasceu e foi junto com seu irmãzinho inseparável.
Assim que terminou o parto, eu tomei uma raqui, para
retirarem a placenta, não entendo o motivo disso, mas assim foi o meu primeiro
parto. As enfermeiras começaram a me tirar de lá, e pedi para ver os meus
bebês, elas então mostraram os dois para mim, que nem consegui enxergar, e a
minha maior dor é não ter a imagem deles na minha mente, não consigo me Lembrar
do rostinho dos dois, me lembro apenas, que eles estavam formadinhos e perfeitinhos,
minha avó disse para todo mundo que eram a cara da minha mãe, mas a mesma coisa
foi com o Miguel e a Sofia. Fiquei uns 30 minutos em frente a uma sala de parto
onde estava nascendo uma menininha, me lembro de ouvi-la chorar e de um dos
médicos dizer para a mãe que era uma menina. Depois disso me levaram finalmente
para o meu quarto, passei por um lugar onde estava lotado de pessoas da minha
família, não queria falar com ninguém, e realmente não falei, só queria ficar
sozinha.
Como as pessoas hoje em dias são descrentes, na sala onde
ganhei os meus bebês não tinha uma incubadora, ninguém acreditava que um
milagre poderia acontecer, que os meus filhos poderiam sobreviver, mas creio
que essa parte da minha vida era algo que eu precisava passar. O médico me
disse com convicção que eles não iriam sobreviver, será que ele nunca ouviu
falar de Deus?? Pois no meu coração, eu acreditava que eles iriam sair comigo
daquele hospital. Mas Deus sabe todas as coisas e nunca cai uma folha da árvore
sem que Deus queira.
Depois do parto uma enfermeira disse ao Ney, que como os
bebês tinham menos de 500 gramas, era opcional, poderia deixá-los no hospital,
mas também poderia levá-los para que fossem enterrados. Assim começou uma briga
do hospital com a minha família, que queria levar os bebês para serem
enterrados , mas o médico chefe disse ao Ney que não permitiria que ele
levasse, disse: - Deixe aqui, que a gente dá fim neles, (e disse a mesma coisa
pra mim) – Pra que gastar dinheiro com isso?? O Ney então disse pra ele: - Dr. Eu e minha esposa, acreditamos muito em
Deus, e não importa se eles tem 200 gr, 300 gr, 500 gr... Eles são parte de
nós, foram muito desejados, e eu quero sim enterrá-los. Mas se o Sr. Está
dizendo que não vai liberar, tudo bem, mas quero uma declaração a próprio
punho, assinada pelo Sr. dizendo que não está liberando, e depois a gente
resolve.
Então o médico disse pra ele que não podia liberar, pois não
foi ele que fez o parto, (desconversou) que era pra ele voltar mais tarde que o
medico que havia feito o parto, iria liberar pra ele.
O Ney chegou mais tarde, o médico já estava lá e liberou os
bebês, para serem enterrados, eu não pude estar, pois estava no hospital. Mas
minha avó fez um batismo de intenção no cemitério mesmo, foi muito importante
pra mim, nem tinha pensado nisso, mas quando fiquei sabendo, fiquei muito feliz.
Quando cheguei em casa, a primeira coisa que fiz foi ir para
o quarto deles, mas não tinha mais nada, meus irmãos haviam tirado tudo do
quarto, estava vazio, assim como o meu coração naquele momento, tinha apenas
uma poltrona, mas em nenhum momento deixei de acreditar que Deus tinha um
propósito maior para a minha vida, mas é claro que fiquei sem chão, o Ney ia
trabalhar e eu passava o dia inteiro naquele quarto, sentada naquela poltrona.
Pode parecer ruim, mas aqueles momentos foram importantes para mim, estava
vivendo o meu luto, e me encontrando com Deus. Mas já não podia imaginar a vida
sem filhos, por isso pedi muito a Deus que me presenteasse novamente.
Comecei a procurar outros médicos e logo, fui fazer um
Ultrasson, o médico que fez o exame, disse que meu útero estava pronto para ter
outro bebê, que eu poderia sair dali e engravidar, mas quando fui levar o exame
para o médico olhar, ele me disse que meu útero era infantil e seria preciso
fazer muitos exames, me mandou voltar no médico que fez o exame, pois naquele
exame faltava algo que ele havia pedido. Fiquei arrasada, voltei no médico, que
me atendeu prontamente e conversou muito comigo, me mostrou livros, me garantindo
que meu útero não era infantil.
O Ney, marcou exames, eu já tinha lido um livro do Neil Velez, que ganhei de uma amiga querida
nos últimos dias de vida da minha mãe, e fiquei sabendo que ele estaria em São
José dos Campos, não poderia deixar de ir, eu tinha certeza que Deus iria falar
comigo nesse encontro, quando chegou o dia, fui com minha prima Flávia e minha
tia Ane. Foi simplesmente maravilhoso, eu nunca senti tão forte a presença de
Deus na minha vida, eu senti Deus curar todo o meu ser, o Neil Velez estava bem
longe de mim, ele nem sabe que eu estava lá, não encostou a mão em mim, mas
naquela noite, Deus me viu e tocou sua mão em mim e eu saí de lá certa disso.
Nessa mesma semana, o resultado do exame do Ney saiu e por incrível que possa
parecer estava mais do que normal, ele não tinha mais nada. Eu não me lembro ao
certo se foi depois disso ou antes disso, mas eu e o Ney, fomos em um grupo de
oração que não conhecíamos ninguém, e uma moça orou por mim e disse:
- Você está grávida??
Eu disse: - Não!!
Ela disse então: - Deus me deu uma visão se você segurando
um menininho!!
Eu perguntei: - Só um??
Ela disse: - Sim, só um!!
Fiquei com aquilo na minha cabeça, não lembro ao certo a
sequencia dos acontecimentos, mas foram todos seguidos, então um dia eu estava
certa de que estava no meu dia fértil e tive certeza que havia engravidado
naquele dia, naquela noite, eu nem conseguia dormir, pode ter sido psicológico,
mas senti como se os meus folículos estivessem explodido. Eu utilizava um
método, chamado Temperatura Basal, e com ele é possível saber se a sua
menstruação virá através da temperatura do corpo, não sei se vou conseguir
explicar, mas temos uma temperatura mais ou menos igual todos os dias assim que
acordamos, mas quando ovulamos a temperatura sobe e fica alta até o dia de vir
a menstruação, no dia que a temperatura cai a danada vem sem falta.
Depois desse dia, eu sempre fazia uma oração pedindo pra
Deus, que se minha temperatura caísse, e depois que media e via que ainda
estava alta, eu fazia uma nova oração agradecendo por ainda ter uma esperança.
Um dia antes da minha provável menstruação vir, medi a
temperatura pela manhã e quase infartei de felicidade quando vi que a
temperatura ainda estava alta, tive certeza naquele dia que estava grávida. Era
uma sexta feira, não consegui me controlar e acabei contando para o Ney, e
compramos o teste de gravidez. Já era a noite, fiz o teste e apareceu só uma
listrinha. Fiquei arrasada, não era possível, eu nunca tive tanta certeza de
algo na vida, disse pro Ney que era negativo e fui tomar banho. Quando saí do
banho, fui jogar o teste no lixo, e vi mais uma listrinha bem clarinha, mas ela
estava lá. Na segunda fiz o Beta no laboratório e estava eu mais uma vez
grávida e de apenas 4 semanas. O resto da história vocês já conhecem, esse é o
Miguelzinho, meu príncipe lindo, arteiro e inteligente.
Continua...